Melhores protocolos de TRT (testosterona) em 2026 — 10 esquemas comparados
Metodologia
Classificação em 4 critérios ponderados para a TRT. (1) Estabilidade hormonal: amplitude das flutuações séricas de testosterona entre duas aplicações ("peak-to-trough"), idealmente < 200 ng/dL de diferença para minimizar sintomas cíclicos. (2) Perfil de segurança a longo prazo: efeitos cardiovasculares (Calof 2005, TRAVERSE Lincoff 2023), hematócrito (Coviello 2008, Bachman 2014), PSA e próstata (Bhasin 2018), perfil lipídico. (3) Acessibilidade: acompanhamento médico, disponibilidade do produto, custo anual, complexidade logística. (4) Adequação ao perfil: idade, desejo de fertilidade, comorbidades, preferência de aplicação. No Brasil, regulamentado pelo CFM (Conselho Federal de Medicina). Fontes primárias: Bhasin 2018, Lincoff 2023 (TRAVERSE NEJM), Saad 2017, Calof 2005, Coviello 2008, Hackett 2017.
1. Testosterona cipionato (Deposteron) 140 mg/sem (2 apl/sem) — o gold standard moderno
O protocolo TRT mais amplamente adotado em 2026, validado pela Endocrine Society (Bhasin 2018) e pela BSSM UK (Hackett 2017). Testosterona cipionato (meia-vida ~8 d) em duas aplicações subcutâneas ou intramusculares (70 mg segunda, 70 mg quinta). No Brasil, Deposteron (EMS Pharma) é a referência em farmácia com receita azul. Nível sérico estável atingido em 4-6 semanas, flutuações peak-to-trough ~150-200 ng/dL. Objetivo terapêutico: T total 600-900 ng/dL, E2 25-45 pg/mL.
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato (Deposteron) ou enantato equivalente 140 mg/sem fracionado em 2 aplicações (seg 70 mg / qui 70 mg). SC ou IM. Avaliação em S6 (T total + livre, E2, hematócrito) e ajuste por passos de 20 mg. Sem duração — protocolo contínuo vitalício.
Para quemHomens 30-70 anos com hipogonadismo confirmado (T total <300 ng/dL em 2 dosagens matinais + sintomas), ASIH pós-AAS confirmado, desejo de fertilidade gerenciado separadamente (+HCG). Acompanhamento médico ideal pelo CFM.
Vantagens- + Estabilidade hormonal ótima — flutuações <200 ng/dL
- + Validado pela Endocrine Society (Bhasin 2018)
- + Conforto logístico moderado (2 aplicações/sem)
- + Compatibilidade fertilidade com adição HCG
- + Custo moderado com receita (~300-800 R$/ano genérico no Brasil)
Desvantagens- − Aplicações vitalícias
- − Hematócrito a vigiar (>54% = flebotomia indicada via Hemocentros BR)
- − PSA a vigiar >50 anos
- − Abastecimento às vezes apertado
- − Efeitos cardiovasculares a longo prazo a monitorar
2. Testosterona cipionato 100 mg/sem (3 apl/sem ou EOD) — a estabilidade máxima
Variante "ultra-estável": fracionamento em 3 aplicações/sem (~33 mg cada) ou aplicação diária subcutânea (~14 mg/dia). Atenua as flutuações séricas a <100 ng/dL peak-to-trough — útil para pacientes sensíveis às variações (mudanças de humor, libido flutuante). Particularmente adaptada a microdoses subcutâneas.
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato 100-120 mg/sem fracionado em 3 apl (seg/qua/sex) ou aplicação diária 14-17 mg/dia SC. Agulha insulina 30G × 8 mm. Avaliação em S6-S8.
Para quemPacientes TRT sensíveis às flutuações hormonais (humor cíclico entre aplicações), usuários otimizadores buscando estabilidade máxima, perfis SHBG baixos. Boa opção em intolerância E2 em 2 apl/sem.
Vantagens- + Flutuações séricas mínimas (<100 ng/dL)
- + Reduz aromatização por suavização do pico
- + Agulha insulina indolor
- + Compatível com atividade diária (5 min/dia)
- + Frequentemente melhor perfil E2 em baixa dose
Desvantagens- − Logística diária ou 3 apl/sem
- − Aderência a longo prazo às vezes difícil
- − Preparação manual (extração agulha fina)
- − Sem benefício clínico demonstrado vs 2 apl/sem na maioria
- − Ciclo de revascularização de locais de aplicação a gerenciar
3. Testosterona undecanoato (Nebido) 1000 mg/12 sem IM — a TRT longa duração
Testosterona undecanoato IM (Nebido na Europa e Brasil, Aveed nos EUA): éster muito longo (meia-vida ~21 d), aplicação a cada 10-14 semanas após dose de carga. No Brasil, Nebido (Bayer) disponível em farmácia com receita azul. Estabilidade sérica correta se timing respeitado. Behre 1999 (fase 1) e Saad 2017 (registry 12 anos) documentam um bom perfil a longo prazo. Risco raro mas documentado de pulmonary oil microembolism (POME) — aplicação lenta imperativa.
Dose / DuraçãoTestosterona undecanoato (Nebido) 1000 mg IM. Dose de carga: S0 e depois S6. Manutenção: a cada 10-14 sem conforme trough levels. Aplicação profunda em glúteo, muito lenta (>2 min) para limitar POME.
Para quemPacientes TRT que preferem minimizar a frequência de aplicação, homens >50 anos com hipogonadismo estável, perfil cardiovascular e hematológico sem preocupação. Ideal para pacientes relutantes às autoaplicações.
Vantagens- + Conforto logístico máximo (4-5 apl/ano somente)
- + Estabilidade sérica correta em 10-12 sem
- + Validado na Europa (Nebido AMM), nos EUA (Aveed), Brasil (Nebido)
- + Aderência excelente a longo prazo
- + Saad 2017 documenta efeitos benéficos sobre composição corporal, metabólicos
Desvantagens- − Risco POME (raro mas documentado, <1% — Behre 1999)
- − Custo elevado no Brasil (~600-1500 R$/aplicação, ~3000-7500 R$/ano)
- − Aplicação IM profunda, às vezes dolorosa
- − Dificuldade para ajustar finamente (dose única 1000 mg)
- − Disponibilidade variável conforme país
4. Gel transdérmico (Androgel) 50-80 mg/dia — a TRT sem aplicação
Gel cutâneo aplicado diariamente (ombro, braço, abdômen). Concentrações séricas estáveis se aplicação correta, sem pico nem vale — perfil o mais "fisiológico" de todos os protocolos TRT. Bhasin 2018 menciona o gel como opção de primeira intenção em algumas indicações. No Brasil, Androgel (Besins Healthcare) em farmácia com receita azul. Inconveniente principal: risco de transferência cutânea ao parceiro ou às crianças (precauções a observar).
Dose / DuraçãoAndrogel sobre 50 mg/dia (5 g gel a 1%) ou bomba 30-80 mg/dia (Androgel 1,62%). Aplicação matinal após banho em pele seca. Prazo 4-6 sem para atingir estabilidade.
Para quemPacientes fóbicos às aplicações, homens vivendo sozinhos (limita transferência), pacientes idosos com hipogonadismo leve, desejo de perfil ultrafisiológico. Não adequado a famílias com crianças pequenas ou parceiros.
Vantagens- + Sem aplicação — aderência facilitada
- + Perfil sérico o mais fisiológico (ritmo circadiano preservado)
- + Sem pico suprafisiológico
- + Validado em farmácia (AMM Europa, EUA, Brasil)
- + Parada rápida possível (eliminação 24-48h)
Desvantagens- − Risco transferência ao parceiro/crianças (Bhasin 2018 warnings)
- − Absorção variável conforme indivíduos (5-15% bioavailability)
- − Custo elevado no Brasil (~2000-5000 R$/ano)
- − Efeito limitado em 20-30% dos pacientes (maus absorvedores)
- − Aplicação diária restritiva
5. Testosterona cipionato + HCG (140 mg + 500 UI 2×/sem) — a TRT fertilidade-preservada
Protocolo gold standard para TRT em homens em idade de procriação. A testosterona exógena suprime o eixo HHG e a espermatogênese; a adição de HCG 500 UI 2×/sem mantém as células de Leydig e a espermatogênese intratesticular (Coviello 2005, Depenbusch 2002). Wenker 2015 documenta a combinação HCG + TRT para preservação de fertilidade a longo prazo.
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato 140 mg/sem em 2 apl + HCG (Choragon) 500 UI 2×/sem (seg/qui, mesmos dias que test ou em alternância). Avaliação em S8: testosterona, espermograma se projeto paternal, E2, volume testicular.
Para quemHomens 25-50 anos em TRT com desejo de fertilidade (presente ou futuro), parceiras em projeto de gravidez, homens valorizando o volume testicular. Padrão recomendado em todos os usuários jovens.
Vantagens- + Preservação fertilidade documentada (Wenker 2015)
- + Volume testicular conservado
- + Conforto psicológico (testículos visíveis)
- + Permite projeto paternal sem interrupção TRT
- + Mecanismo fisiológico (mimetiza LH endógena)
Desvantagens- − Custo adicional (~500-1000 R$/ano para HCG no Brasil)
- − Logística de aplicações adicionais
- − Risco E2 em alta (mini-aromatização Leydig estimulados)
- − Mercado paralelo HCG: qualidade variável
- − Dessensibilização Leydig possível se HCG muito elevada
6. TRT em dose fisiológica "ultra-low" 80-100 mg/sem — a TRT subliminal
TRT em dose mínima visando a faixa baixa do normal (450-600 ng/dL T total) em pacientes sensíveis aos efeitos suprafisiológicos ou com hematócrito limítrofe. Preserva os benefícios subjetivos (libido, energia, humor) minimizando os riscos cardiovasculares e a eritrocitose (Coviello 2008: hematócrito dose-dependente).
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato 80-100 mg/sem em 2 apl (40-50 mg seg/qui). Alvo T total 500-700 ng/dL, E2 20-35 pg/mL. Avaliação em S6-S8.
Para quemPacientes idosos (>60 anos), antecedentes cardiovasculares, hematócrito baseline limítrofe (>50%), busca de melhora subjetiva sem pico suprafisiológico. Ideal para TRT "saúde" mais que "performance".
Vantagens- + Hematócrito estável, risco eritrocitose mínimo
- + Perfil lipídico preservado
- + Aromatização moderada (frequentemente sem IA)
- + Custo anual o mais baixo
- + Adequado a pacientes idosos ou cardiovasculares limítrofes
Desvantagens- − Benefícios subjetivos às vezes sub-ótimos
- − Não adequado a pacientes com SHBG muito elevada
- − Composição corporal menos favorável
- − Energia e libido às vezes insuficientes
- − Exige ajuste individual preciso
7. TRT "otimizada" 200 mg/sem — a TRT "top of range"
TRT no teto alto da normal fisiológica (900-1100 ng/dL T total), buscando benefícios subjetivos e composição corporal máximos. Fora de AMM (Bhasin 2018 alvo 500-900 ng/dL), mas praticada em clínicas privadas (EUA, Europa, Brasil). Exige monitoramento rigoroso: hematócrito, lipídios, PSA, pressão arterial. Risco cardiovascular a longo prazo a ponderar (Lincoff 2023 TRAVERSE).
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato 200 mg/sem em 2 apl (100 mg seg/qui). Alvo T total 900-1100 ng/dL. IA frequentemente necessário (anastrozol 0,25-0,5 mg/sem). Exame trimestral.
Para quemCulturistas em transição "cruise" pós-ciclos AAS, otimizadores antienvelhecimento aceitando o perfil de risco, homens 35-55 anos em boa saúde cardiovascular baseline. Acompanhamento médico sério exigido (CFM no Brasil).
Vantagens- + Benefícios subjetivos máximos (libido, energia, humor)
- + Composição corporal melhorada significativamente
- + Performance física notável
- + Efeito antienvelhecimento subjetivo marcado
- + Compatibilidade culturismo "cruise"
Desvantagens- − Fora AMM estrita (T alvo > recomendações)
- − Hematócrito frequentemente >52% — flebotomias recorrentes
- − Perfil lipídico degradado
- − IA frequentemente necessário — risco E2 muito baixo
- − Custo superior
8. TRT + anastrozol 0,25 mg E3D — a TRT com controle E2
TRT padrão (140 mg/sem) com adição de anastrozol dose baixa para pacientes aromatizadores rápidos (E2 > 50 pg/mL em dose fisiológica). O anastrozol bloqueia a aromatase e baixa o E2; dose a ajustar precisamente porque E2 muito baixo (<20 pg/mL) causa sintomas graves (perda libido, dores articulares, distúrbios cognitivos — Finkelstein 2013).
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato 140 mg/sem + Anastrozol 0,25-0,5 mg E3D ou 1 mg/sem. Avaliação E2 ultrassensível em S4 e depois S8. Alvo E2 25-40 pg/mL.
Para quemPacientes TRT com aromatização excessiva (E2 >50 em dose fisio), antecedentes de ginecomastia, retenção hídrica marcada sob TRT. Não em primeira intenção — unicamente se E2 fora do alvo documentado.
Vantagens- + Controle aromatização em aromatizadores rápidos
- + Reduz ginecomastia e retenção
- + Melhora tolerância subjetiva TRT
- + Permite doses TRT mais generosas
- + Mauras 2009 documenta segurança anastrozol
Desvantagens- − Risco E2 muito baixo se superdosagem IA (Burnett-Bowie 2009: densidade óssea)
- − Sintomas E2 baixo: libido em queda, dores articulares, depressão
- − Exame E2 ultrassensível caro e nem sempre disponível no Brasil
- − IA inútil na maioria dos pacientes TRT em dose fisiológica
- − Exige ajuste fino
9. TRT "HCG mono" (1000-2000 UI 2×/sem) — a TRT sem testosterona exógena
Alternativa à TRT exógena para homens hipogonádicos secundários (LH/FSH baixos, eixo testicular funcional). A HCG estimula diretamente a esteroidogênese Leydig sem supressão hipotalâmica adicional. Permite conservação da espermatogênese e do volume testicular. Liu 2002 documenta a indução de espermatogênese por HCG sozinha ou combinada. Adaptado a um subgrupo específico de pacientes.
Dose / DuraçãoHCG (Choragon) 1000-2000 UI 2×/sem SC (seg/qui). Avaliação T total em S6 (alvo 500-800 ng/dL). Ajuste por passos de 250 UI. Exame E2 importante.
Para quemHomens com hipogonadismo secundário (eixo testicular funcional, LH/FSH baixos), desejo forte de preservar fertilidade, ASIH pós-AAS em usuário jovem em recuperação longa. Avaliação a endocrinologista prévia.
Vantagens- + Sem testosterona exógena — eixo HHG preservado
- + Espermatogênese mantida (frequentemente melhorada)
- + Volume testicular aumentado
- + Alternativa para hipogonadismo secundário
- + Mecanismo fisiológico direto
Desvantagens- − Custo anual elevado (~2000-5000 R$ conforme dose no Brasil)
- − Dessensibilização Leydig possível a longo prazo
- − E2 frequentemente elevado (Leydig estimulados também produzem E2)
- − Não adequado ao hipogonadismo primário (testículos não funcionais)
- − Estudos a longo prazo limitados vs TRT clássica
10. TRT "microdosing" SC diário 15-20 mg/dia — a TRT otimizada moderna
Tendência moderna: microdoses diárias subcutâneas (15-20 mg test cipionato com agulha insulina) para flutuações séricas mínimas (<80 ng/dL) e SHBG preservada. Vários estudos recentes (~2020-2024) sugerem um melhor perfil hormonal em SHBG, E2 e sintomatologia subjetiva vs aplicações menos frequentes. Prática ainda em padronização mas amplamente adotada em clínicas privadas.
Dose / DuraçãoTestosterona cipionato 15-20 mg/dia SC (agulha insulina 30G × 8 mm). Rotação locais (abdômen, coxas, glúteos). Alvo T total 600-900 ng/dL estável.
Para quemPacientes TRT buscando otimização máxima, otimizadores antienvelhecimento, usuários sensíveis às flutuações hormonais, perfis SHBG baixa, homens jovens em TRT a longo prazo.
Vantagens- + Flutuações séricas quase nulas
- + SHBG melhor preservada vs grandes doses
- + E2 frequentemente mais estável e baixo
- + Indolor (agulha insulina)
- + Rotação viável em 6-8 locais
Desvantagens- − Compromisso diário (5 min/dia)
- − Preparação manual de pequenas doses (precisão exigida)
- − Sem estudos RCT comparando com 2 apl/sem ainda
- − Aderência a longo prazo às vezes difícil
- − Endurecimentos cutâneos possíveis em má rotação
Comparativo final
| Protocolo | Estabilidade | Fertilidade | Logística | Custo/ano |
|---|---|---|---|---|
| Deposteron 140 mg (2×/sem) | Muito boa | Comprometida (sem HCG) | Simples | 300-800 R$ |
| Test cip 100 mg (3×/sem ou EOD) | Excelente | Comprometida (sem HCG) | Média | 300-600 R$ |
| Nebido (undecanoato) | Boa | Comprometida (sem HCG) | Muito simples (4-5 apl/ano) | 3000-7500 R$ |
| Androgel transdérmico | Excelente | Comprometida | Diária | 2000-5000 R$ |
| Test cip + HCG | Muito boa | Preservada | Média | 1000-2000 R$ |
| TRT ultra-low 80 mg | Boa | Reduzida | Simples | 200-500 R$ |
| TRT otimizada 200 mg | Boa | Muito comprometida | Simples | 500-1000 R$ |
| TRT + IA | Boa | Comprometida | Média | 400-800 R$ |
| HCG mono | Média | Preservada | Média | 2000-5000 R$ |
| Microdosing SC diário | Máxima | Comprometida (sem HCG) | Diária | 300-800 R$ |
Perguntas frequentes
- A partir de qual limiar de testosterona iniciar uma TRT?
- Bhasin 2018 (Endocrine Society Guideline): TRT indicada se T total <264 ng/dL em 2 dosagens matinais (8-10h) repetidas + sintomas clínicos de hipogonadismo (libido baixa, fadiga, depressão, perda massa magra, disfunção erétil, ginecomastia). Limiar europeu mais prudente: <300 ng/dL persistente + sintomas. Hackett 2017 (BSSM UK) sugere também um limiar clínico combinado (T + sintomas). Importante: uma dosagem isolada a 280 ng/dL sem sintomas NÃO justifica uma TRT. Diagnóstico diferencial imperativo (obesidade, sono, medicações, depressão). No Brasil, o CFM regulamenta as indicações.
- TRT vitalícia ou reversível?
- Para o hipogonadismo primário (testículos não funcionais — Klinefelter, traumatismo, pós-quimio): TRT vitalícia. Para o hipogonadismo secundário (eixo hipotalâmico falido): reversibilidade possível se causa tratável (obesidade mórbida, opioides, etc.). Para o ASIH pós-AAS em usuário jovem: tentativa de recuperação natural com protocolo Lipshultz (Rahnema 2014) antes de TRT permanente. Uma vez a TRT iniciada, a parada exige uma TPC clássica e um período de recuperação HHG de 3-6 meses, sem garantia de recuperação completa se TRT >2 anos.
- Quais efeitos cardiovasculares da TRT a longo prazo?
- Questão debatida. A meta-análise Calof 2005 e vários estudos observacionais sugeriram um aumento modesto dos eventos CV em alguns perfis. O estudo TRAVERSE (Lincoff 2023, NEJM) — RCT de referência com 5246 homens hipogonádicos em risco CV — demonstrou a não inferioridade cardiovascular da TRT vs placebo em 33 meses (HR 0,96 para eventos MACE). Saad 2017 (registry 12 anos) mostra benefícios metabólicos. Conclusão: TRT em hipogonádico com acompanhamento médico não aumenta o risco CV; o único fator preocupante continua sendo a eritrocitose (hematócrito >54%) a vigiar.
- É preciso um IA (anastrozol) sistemático sob TRT?
- Não. Bhasin 2018 NÃO recomenda o IA sistemático. A maioria dos pacientes TRT em dose fisiológica (100-150 mg/sem) tem um E2 na faixa fisiológica sem IA. IA unicamente se: (1) E2 ultrassensível >50-60 pg/mL documentado, E (2) sintomas clínicos (ginecomastia evolutiva, retenção marcada, libido em queda paradoxal). Superdosagem IA é mais perigosa que ausência de IA: E2 <20 pg/mL causa sintomas graves (Finkelstein 2013, Burnett-Bowie 2009 — densidade óssea). Anastrozol 0,25 mg E3D máx no início, ajustar.
- Hematócrito elevado sob TRT: o que fazer?
- A eritrocitose (hematócrito >54%) é o efeito adverso mais frequente da TRT (Coviello 2008, Bachman 2014: mecanismo via supressão da hepcidina). Algoritmo: (1) Hematócrito 50-54%: vigilância trimestral, hidratação +1L/dia, evitar dose alta. (2) Hematócrito 54-57%: flebotomia terapêutica (sangria 450 ml via Hemocentros BR, 1-3×/ano), reduzir dose TRT em 20%. (3) Hematócrito >57%: flebotomia imediata + revisão dose. (4) Recidiva apesar de ajustes: considerar mudança para gel transdérmico ou microdosing SC (Bhasin 2018, Hackett 2017).
- TRT e fertilidade: compatíveis?
- A testosterona exógena suprime LH/FSH e a espermatogênese — incompatível com fertilidade sem precauções. Soluções: (1) Adição HCG 500 UI 2×/sem durante a TRT mantém a espermatogênese (Coviello 2005, Depenbusch 2002). (2) Adição FSH (Menopur, Gonal-F) se HCG insuficiente em alguns pacientes. (3) Pausa TRT 3-6 meses pré-concepção + TPC clássica + HCG (Wenker 2015). (4) Armazenamento de esperma antes do início TRT em homem em idade de procriação. Referência: Crosnoe 2013, Wenker 2015, Bhasin 2018.
- Via SC ou IM: qual diferença?
- Vários estudos recentes (2017-2023) sugerem que a via subcutânea (SC) com agulha insulina 30G × 8 mm dá níveis séricos comparáveis à IM, com uma absorção ligeiramente mais lenta (~80-85% do AUC IM) e menos incômodo. Vantagens SC: indolor, mais locais disponíveis (abdômen, coxas, glúteos), sem risco de aplicação intravascular. Inconvenientes SC: volumes >0,5 ml às vezes incômodos, endurecimentos possíveis em má rotação. Em 2026, a via SC é amplamente adotada em TRT moderna, sobretudo para as microdoses. Bhasin 2018 reconhece a SC como alternativa aceitável.
- Como monitorar uma TRT a longo prazo?
- Exames recomendados (Bhasin 2018, Hackett 2017): Inicial (antes do início) — T total + livre, LH, FSH, E2, SHBG, hemograma, lipídios, PSA se >40 anos, hematócrito, creatinina, TGP/TGO, IMC, pressão. A 3 meses pós-início: T total (trough), E2, hematócrito, lipídios. A 6 meses: igual + PSA se >40 anos. A 12 meses e anualmente: exame completo + densitometria óssea a cada 2-3 anos, polissonografia se sintomas de apneia. Vigilância particular: hematócrito (alvo <54%), PSA (alvo variação <0,75 ng/mL/ano), pressão arterial estável. No Brasil: Fleury, DASA, Hermes Pardini.